Formando leitores e escritores: como e por quê - Gara School

 

Por Litza Amorim

Coordenadora de Currículo da Builders School e Gara School – Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo e autora do livro J.H. Pestalozzi e suas cartas sobre educação (editora Comenius, 2025).

Muito antes de ler as palavras, as crianças aprendem a “ler” a vida e o mundo.  

Elas leem no cotidiano quais brincadeiras existem com as quais se pode brincar, com quais pessoas gostam de conversar, quem pode ajudá-las quando precisam. A leitura e os livros podem ser essa extensão do mundo, podem ser saboreados com a mesma intensidade e interesse com os quais se brinca em um balanço de pneus ou se faz novo preparo culinário.

Vivenciando frequentes e amorosas práticas de leitura, logo, assim como uma criança elege seu ursinho de pelúcia favorito, ela pode escolher sua leitura favorita. Ler pode ser uma continuidade do brincar, uma atividade na qual pequenos leitores e leitoras imaginam que são piratas, princesas, animais, crianças viajantes e tantos outros personagens, se aventurando e se surpreendendo com as leituras literárias.

Da mesma forma, assim como as crianças adoram conversar e descobrir o que se passa em outros contextos da escola, é muito estimulante trocar cartas e bilhetes entre turmas da Educação Infantil. As leituras e escritas das crianças pequenas também podem ser bem práticas, envolvendo convites, receitas, bilhetes e cartazes que ajudem a comunidade a se organizar, com dizeres como:

“Na composteira, não jogue casca de abacaxi.”

Ler e escrever precisam ter propósito

Conforme as crianças crescem, surge o desafio de “decifrar as letras”. Mas os motivos para ler e escrever… esses não devem faltar.

Délia Lerner, pesquisadora e formadora da área de leitura e escrita, inspira a Builders School e a Gara School no propósito de criarmos, dentro da escola, pequenas sociedades de leitores e escritores.

Escrever e ler para os colegas e, quem sabe, comentar em revistas e jornais “de verdade”, liberta os alunos das amarras de produzirem somente para os professores ou apenas para ganharem uma nota. Quando a leitura e a escrita ganham sentido, tornam-se ferramentas de expressão, comunicação e construção de identidade.

Literatura amplia repertórios e forma pensamento crítico

As obras literárias que devem compor o currículo da escola vão das mais clássicas narrativas de fantasia às histórias de vida que se cruzam com emblemáticos dramas sociais. 

As crianças e adolescentes têm o direito de conhecer as fábulas, os mitos dos povos originários,  os contos tradicionais árabes, as novelas de cavalaria – gêneros literários que “geralmente, em nossa sociedade, muitas pessoas passam a vida impossibilitadas de conhecer e fruir”, é o que destaca Jacqueline Magalhães, especialista em Alfabetização e Mestre em Educação (PUC), assessora de Linguagens da Builders e da Gara. 

Já as experiências dos adolescentes com ficções que tematizam questões relevantes da sociedade os ajudam a refletir sobre os dilemas éticos vividos pelos personagens. Essas vivências incentivam os jovens a mergulhar imaginativamente em questões humanitárias, formando a inteligência e a sensibilidade para questões morais, sem sermões, perspectivas moralistas ou autoritarismos.

Ao lerem a obra Maus, vencedora do prêmio Pulitzer de Literatura, por exemplo,  nossos estudantes de oitavo ano refletem sobre questões difíceis da humanidade e percebem como uma história em quadrinhos pode trazer formas estéticas intensas para dizer além das palavras. 

Ao lerem Uma Garrafa no Mar de Gaza, os mesmos estudantes se envolvem com um romance que desabrocha nas trocas de mensagens entre dois jovens, como um anseio de vida, amor e liberdade em meio ao ressoar da guerra.

Formar leitores é formar pessoas

Cultivando o hábito de selecionar obras, lê-las, comentá-las, avaliá-las positivamente ou negativamente, e formando práticas de leitura individuais ou em grupo — nas quais o olhar de um melhora o do outro — vamos formando o leitor, aquele que usa os livros para sonhar, sentir e pensar sobre a vida e sobre o mundo.

O leitor ou a leitora, por sua vez, é alguém que enriquece seu repertório cultural de modo amplo, por vezes imprevisível, mas que certamente atuará com mais reflexão, criatividade e sensibilidade em sua vida pessoal, como cidadão, e no universo profissional, beneficiando toda a sociedade com suas contribuições.

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