
Por Gabriela Paproschi
Psicopedagoga e Especialista em Saúde e Bem-estar da Gara School
As férias chegam como um novo tempo, a hora de (des)conectar. Os despertadores passam a tocar sem tanta importância, o relógio parece não girar tão rápido, e o tempo no colo familiar se alonga. Entre o café da manhã que pode ser mais tarde, momentos de brincadeiras, conversas que duram mais, tarde sem grandes planos, viagens que se aproximam e pequenas aventuras do dia a dia, damos boas-vindas às férias.
É um tempo em que a rotina afrouxa os laços, abrindo espaço para encontros mais demorados, descobertas inesperadas e a simples alegria de estar junto. Um tempo para desacelerar, observar o que muitas vezes passa despercebido e permitir que os dias encontrem seu próprio ritmo. Nas férias, nem tudo precisa acontecer.
Há valor também nas pausas, no ócio, nos silêncios compartilhados e nas experiências que surgem sem serem planejadas.
A importância do tempo de ócio
Nas férias damos espaço especial para o ócio, que apesar do que pode parecer, não significa “não fazer nada”. É um tempo livre, sem a necessidade de seguir um planejamento ou com tempos mais rígidos.
O ócio traz para a criança e para o adolescente a capacidade de criar, imaginar, construir e vivenciar. Sem estímulos prontos, como as telas ou atividades mais estruturadas, nasce a necessidade de improvisar, imaginar e criar suas próprias brincadeiras. O ócio também tem características especiais: revelar gostos pessoais, ensinar a lidar com o tédio e favorecer o desenvolvimento da inteligência emocional.
Ao encontrar espaço para simplesmente estar, a criança passa a escutar mais os próprios interesses e curiosidades. Aos poucos, descobre o que gosta de fazer, aprende a ocupar seu tempo de forma mais autônoma e desenvolve recursos internos que a acompanharão muito além das férias.
Como se conectar nas ações do cotidiano
As férias também são um convite para estar presente e se fazer presente. Um tempo para valorizar o cotidiano comum e descobrir, nele, oportunidades extraordinárias de conexão com os filhos.
Para se conectar, não é preciso uma viagem especial, um brinquedo novo ou horas e horas diante de uma tela. Muitas vezes, basta compartilhar os pequenos momentos do dia: planejar algo divertido para o dia seguinte, preparar juntos uma refeição favorita, sentar-se à mesa sem as distrações da tecnologia, jogar uma partida de videogame, fazer uma ida ao mercado ou simplesmente sentar no chão da sala para conversar sobre um interesse em comum.
São nesses instantes aparentemente simples que se fortalecem os vínculos, se criam espaços de escuta e se constroem lembranças que permanecem muito além das férias.
As memórias que ficam
Quando nos lembramos da infância, raramente nos recordamos de agendas cheias, de tudo que fizemos em um determinado período ou de coisas interessantes que ganhamos.
O que costuma permanecer com a gente até a fase adulta são os momentos juntos, e os detalhes de afetos: uma receita que foi preparada em família, uma viagem que trouxe momentos de muitas risadas, uma conversa no carro no caminho de volta pra casa ou uma brincadeira que foi inventada e se repetiu várias vezes.
As férias oferecem mais oportunidades para que as memórias afetivas se criem e se consolidem, não porque precisam ser extraordinárias, mas porque existe mais tempo para vivê-los.
São experiências simples, compartilhadas com pessoas importantes e que amamos, que concretizam os sentimentos de pertencimento e cuidado. Esse vínculo familiar que se fortalece, aos poucos vai se transformando em memórias que serão contadas ao longo dos anos.