Ser bilíngue sem perder quem somos - Gara School

Por Uyara Nascimento, coordenadora pedagógica da Gara School

Globalização já foi palavra hit nos distantes anos 90. Muito provavelmente, naquela década, deve ter sido escolhida como palavra do ano. Naquela época eu era criança, mas me lembro bem dos tantos programas de TV em que se falava sobre os efeitos da globalização no mundo e de como ela viria para transformar o que sabíamos sobre tudo e todos.

Agora já estamos instalados no século XXI e vemos um mundo conectado digitalmente. A globalização é mais do que real. Temos a chance de falar e negociar com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Os avanços da tecnologia trouxeram ainda mais suporte para esse contato: tradutores instantâneos de imagem nos ajudam a ler rótulos, aplicativos traduzem praticamente qualquer língua, e nos aproximamos mesmo sem saber um único som da língua do outro. Mais do que nunca, podemos falar sobre nós e ouvir sobre o outro. 

Então a pergunta que fica é: será que ainda precisamos ser bilíngues?

O medo de perder a identidade

Uma das maiores angústias em relação à globalização era a possibilidade de perda de identidade — uma espécie de homogeneização das pessoas. Imaginava-se que a globalização faria uma grande vitamina das culturas e que, no final, seríamos todos uma coisa só.

No entanto, o que mais vemos hoje é um percurso oposto. Quanto mais nos distanciamos das nossas raízes, mais queremos que o mundo saiba sobre elas. Afinal, como vou contar para meus vizinhos sobre a minha terra que tem palmeiras, onde canta o sabiá, e que as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá?

O verdadeiro papel do bilinguismo

É aqui que a pessoa bilíngue se mantém. Falar uma língua adicional não serve apenas para os negócios, para o mercado ou para conexões sem vínculo. Aprender uma nova língua também serve para encantar o outro com a nossa cultura, para fazer comparações, para criar produtos que possam ajudar pessoas que não conhecemos, mas que vivem como nós. Serve para contar como nos relacionamos com o tempo, como construímos nossa sabedoria e como cultivamos nossos afetos.

Saímos do local, visitamos o global e, de forma muito intuitiva — como bons filhos de nossa terra — voltamos para nós mesmos. Voltamos carregando a sabedoria de outros povos e com um desejo quase urgente de ensinar ao mundo quem somos.

Educar para o mundo sem perder a essência

Propor um ensino bilíngue que trate do mundo, mas também de nós, é revolucionário.

Ensinamos as crianças a abraçar toda a nossa tradição e cultura sem deixar de abrir portas e janelas para todos os mundos. Em breve, estarão aptas a encantar os outros com tudo o que construímos: com as dores e os sabores da nossa história. Ao mesmo tempo, aprenderão a olhar para esses outros mundos e avaliar o quanto deles desejam trazer para dentro do nosso.

Ser bilíngue não é se negar. Não é ser uma pessoa diferente dependendo da língua que se fala. Ser bilíngue é encontrar-se com profundidade dentro de si e compreender que o outro também carrega, em sua formação, as mesmas questões identitárias que nós.

É habitar a si mesmo.
Construir a própria identidade enquanto se aprende a compreender e a abraçar a identidade do outro.

 

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